Charles Babbage ~ Biografia

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Charles Babbage foi um matemático inglês que promoveu diversas contribuições à matemática, astronomia e principalmente aos métodos de pensamento científico na Inglaterra. No entanto, a maior contribuição de Babbage para o mundo foras as idéias e os desenhos do motor analítico, que introduzia a idéia do computador moderno, se utilizando de cartões furados para programação e obtenção de dados.

Se Babbage tivesse conseguido realizar sua visão e transformado seu sonho em realidade, o século XIX teria sido muito mais SteamPunk do que foi – mais como hoje em dia fantasiamos. É só imaginar computadores realizando cálculos e operando maquinaria em 1850.

Infância e Estudos

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Tanto a data quanto o local de nascimento de Charles Babbage eram motivo de discussão, mas aparentemente agora estão estabalecidos. Originalmente achava-se, incluindo um obituário no New York Times, que Babbage havia nascido em 26 de dezembro de 1792, mas um sobrinho escreveu ao jornal dizendo que a data correta seria um ano antes. Apenas em 1975 essa dúvida foi dirimida quando Hyman achou um registro do batismo de Charles Babbage em Londres no dia 6 de janeiro, apontando o ano correto de seu nascimento como sendo de fato, 1791.

Charles, filho do banqueiro Benjamin e de Betsy Plumleigh, tinha uma saúde muito frágil em sua infância, como relatado pelo próprio: “Having suffered in health at the age of five years, and again at that of ten by violent fevers, from which I was with difficulty saved, I was sent into Devonshire and placed under the care of a clergyman (who kept a school at Alphington, near Exeter), with instructions to attend to my health; but, not to press too much knowledge upon me: a mission which he faithfully accomplished.”[11]. Já que seu pai possuía riquezas consideráveis, ele pode pagar escolas particulares – após Alphington, Charles estudou em uma academia em Forty Hill, Middlesex, onde começou a mostrar uma paixão por matemática e uma aversão aos clássicos, e depois em casa, com um tutor de Oxford para levá-lo ao nível universitário, estudando as notações e os métodos matemáticos de Leibniz e Lagrange.

A Sociedade Analítica

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Isso fez com que, ao entrar para a Trinity College, em Cambridge, em 1810, achasse as aulas inferiores ao conhecimento adquirido pelos livros, levando-o a criar uma sociedade para tentar levar a matemática européia continental (fora da Inglaterra) moderna para Cambridge. Isso ocorreu quando Babbage conseguiu comprar o livro de cálculo diferencial e integral de Lacroix, pagando uma fortuna por ele (livros oriundos da França, no período de expansionismo napoleônico, eram raríssimos), e resolveu tentar formar uma sociedade com o intuito de traduzi-lo: “I then drew up the sketch of a society to be instituted for translating the small work of Lacroix on the Differential and Integral Calculus. It proposed that we should have periodical meetings for the propagation of d’s [a notação matemática de Leibniz, utilizada até hoje]; and consigned to perdition all who supported the heresy of dots [notação de Newton, também ainda utilizada, mas apenas no caso específico de derivadas temporais]. It maintained that the work of Lacroix was so perfect that any comment was unnecessary.”[12].

A “Analytical Society” (Sociedade Analítica) foi formada em 1812, e seus membros eram todos graduandos de Cambridge. O primeiro encontro contou com nove matemáticos, dentre os quais John Herschel (que fez diversas contribuições importantes à astronomia, como a descrição da órbita de estrelas duplas, a percepção de gás evaporando da cauda do cometa Halley e os primeiros indícios do vento solar) e George Peacock.

Babbage e Herschel escreveram juntos em 1813 a primeira publicação da Sociedade Analítica, “Memoirs of the Analytical Society” (“Memórias da Sociedade Analítica”), um trabalho surpreendentemente profundo para dois graduandos. Ambos, juntos com Peacock, ainda publicaram a tradução para o inglês do livro de Lacroix (em 1816) e um livro de exemplos de cálculo (em 1820). Nesse meio tempo, Babbage se transferiu da Trinity College para Peterhouse, onde se graduou em 1814 – foi nessa época também que ele percebeu que Herschel era melhor matemático: “He did not compete for honours, believing Herschel sure of first place and not caring to come out second.”[21].

Sociedades e Colaborações

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Foi também em 1814 que Babbage se casou, mudando-se de Cambridge para Londres em 1815. Neste ano e no seguinte, publicou dois artigos importantes sobre equações funcionais, culminando por ser eleito membro da Royal Society de Londres, ainda muito jovem (24 anos). Durante os anos seguintes, Babbage escreveu artigos sobre diversos tópicos diferentes da matemática, mas nenhum de importância significativa (e alguns claramente errados – como por exemplo o seu artigo sobre séries infinitas).

Apesar da honra de fazer parte da Royal Society, Babbage estava insatisfeito com a forma que as sociedades eruditas eram administradas e com a frivolidade que seus membros se portavam, chegando a afirmar que o conselho da Royal Society era um conjunto de homens que se auto-elegiam e depois jantavam juntos para bajular uns aos outros e se dar medalhas. Entretanto, em 1820 ele foi eleito membro da Royal Society de Edinburgo e foi uma grande influência na fundação da Royal Astronomical Society, da qual serviu como secretário pelos seus primeiros quatro anos e depois como vice-presidente.

Em 1825, desenvolveu experimentos com magnetismo em conjunto com Herschel. Dois anos depois, Babbage se tornou professor de matemática de Cambridge, uma posição que ele manteve durante 12 anos (apesar de nunca ter dado uma aula sequer). A razão pela qual ele permaneceu nesse cargo de prestígio sem nunca ter exercido suas funções foi que neste ponto começou o que seria a principal paixão de sua vida – o desenvolvimento de computadores mecânicos.

Sucesso: O Motor de Diferenças

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Charles Babbage é, sem dúvida, o criador dos conceitos por trás do computador moderno. O cômputo de logaritmos fez ele perceber a imprecisão do cálculo humano (como ele chamava os cálculos desenvolvidos por seres humanos) por volta de 1812, como relatado pelo mesmo: “I was sitting in the rooms of the Analytical Society, at Cambridge, my head leaning forward on the table in a kind of dreamy mood, with a table of logarithms lying open before me. Another member, coming into the room, and seeing me half asleep, called out, ‘Well, Babbage, what are you dreaming about?’ to which I replied ‘I am thinking that all these tables’ (pointing to the logarithms) ‘might be calculated by machinery.’”[13].

Certamente Babbage não seguiu essa idéias até 1819, quando seus interesses estavam se voltando para instrumentos astronômicos e suas idéias se tornaram mais precisas, formulando um plano para construir mesas usando métodos matemáticos por meios mecânicos. Tal máquina, na concepção de Babbage, seria capaz de realizar operações complexas usando apenas o mecanismo para adição. A primeira máquina baseada no método de diferenças foi completada por ele em 1822, quando anunciou sua invenção em um artigo lido na Royal Astronomical Society.

Apesar de Babbage ter pensado em uma máquina capaz de imprimir os resultados obtidos, em 1822 isso ainda não havia sido feito – um assistente tinha de anotar os dados. Com sua pequena invenção, Babbage era capaz de calcular os sucessivos termos da seqüência n2 + n + 41, produzindo 60 termos a cada cinco minutos. Babbage chegou a produzir tabelas de logaritmos de 1 até 108000.

O matemático claramente sofreu forte influência do projeto do governo francês executado por de Prony de produzir extensas tabelas logarítmicas e trigonométricas por meio de enormes equipes que faziam os cálculos. Babbage argumentou que uma máquina maior que a que tinha inventado poderia fazer o trabalho de várias equipes, poupando dinheiro e sendo totalmente precisas – o que não deixa de ser o conceito do computador moderno.

Falência: O Motor de Diferenças Revisitado

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Sua invenção lhe rendeu uma medalha de ouro de Astronomical Society em 1823. Então Babbage foi ao governo pedir financiamento para a construção de um motor de diferenças grande, com o aval da Royal Society; após conseguir um financiamento razoável (£1500), ele começou a trabalhar em sua nova máquina, a qual acreditava completar em três anos. Tal máquina seria capaz de computar todas as tabelas que de Prony estava calculando, e era projetada para imprimir os resultados automaticamente. No entanto, a construção foi bem mais lenta que o previsto, e em 1827 os custos já estavam fora de controle.

O ano de 1827 foi verdadeiramente trágico para Babbage. Primeiramente, seu pai, sua esposa e dois de seus filhos morreram nesse ano. Sua própria saúde enfraqueceu muito e ele foi forçado a viajar para a Europa continental, voltando so ao final do ano seguinte. Seu trabalho foi inspecionado pelo Duque de Wellington e outros membros do governo para averiguar o mérito de continuar o financiamento. Até 1830 o governo havia pago seis vezes a quantia prevista originalmente.

Em 1830 Babbage publicou o controverso livro “Reflections on the Decline of Science in England” (“Reflexões sobre o Declínio da Ciência na Inglaterra”), que acabou por promover a criação, no ano seguinte, da British Association for the Advancement of Science. Em 1834 ele lançou o seu trabalho mais influente “On the Economy of Machinery and Manufactures” (“Sobre a Economia de Maquinarias e Manufaturas”), no qual ele propunha uma forma inicial do que chamamos hoje de pesquisa operacional.

Entretanto, 1834 fica marcado também como o ano no qual o trabalho no seu motor de diferenças parou. O governo já havia investido £17000 no projeto (mais de onze vezes a quantia planejada), e Babbage gastado outros £6000 do próprio bolso. A situação ficou indefinida até 1842, quando o governo de Robert Peel decidiu descontinuar o projeto. Nas palavras do biógrafo Dubbey, “Babbage had every reason to feel aggrieved about his treatment by successive governments. They had failed to understand the immense possibilities of his work, ignored the advice of the most reputable scientists and engineers, procrastinated for eight years before reaching a decision about the difference engine, misunderstood his motives and the sacrifices he had made, and (…) failed to protect him from public slander and ridicule.”[31].

O Motor Analítico

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Pelo menos, algo que se tornou parte do legado de Babbage foi concluído por ele em 1834 também: os primeiros desenhos do motor analítico, a semente do computador eletrônico moderno. Seu trabalho no motor de diferenças o levou a uma idéia muito mais sofisticada. Apesar do motor analítico nunca ter progredido para além de desenhos detalhados, ele é impressionantemente similar em componentes lógicos ao computador atual.

Babbage descreve cinco componentes lógicos: o estoque, o moinho, o controle, a entrada e a saída. O estoque contém todas as variáveis sobre as quais as operações seriam feitas, bem como todas as quantidades resultantes de outras operações; o moinho é o análogo da CPU em um computador moderno, e seria o lugar onde as quantidades a serem operadas seriam sempre “compradas”; o controle da seqüência de operações a serem realizadas era operada por cartões furados, que continham o programa para cada tarefa particular; e a entrada e a saída podiam ser gravadas em cartões da mesma forma, o que possibilitaria, na concepção de Babbage, uma capacidade de armazenamento infinita – os cartões furados com os resultados das operações poderiam ser lidos novamente em um estágio futuro se necessário (exatamente a mesma idéia de disquetes, CDs, etc.). Nas palavras do próprio, “Every set of cards made for any formula will at any future time recalculate the formula with whatever constants may be required. Thus the Analytical Engine will possess a library of its own. Every set of cards once made will at any time reproduce the calculations for which it was first arranged.”[14].

O mais brilhante da idéia de Babbage do cartão furado (que chegou a ser empregada diretamente nos primeiros computadores) seria o fato de que cada operação precisaria ser programada ou calculada apenas uma única vez – das vezes seguintes, bastaria reintroduzir o cartão correspondente. Para se utilizar desta operação ou resultado em outra máquina, bastaria copiar o cartão, e assim por diante.

No entanto, Babbage decidiu, após suas tentativas fracassadas com o motor de diferenças, não procurar a ajuda do governo, e suas idéias só vieram ao conhecimento público por meio do matemático (e futuro primeiro-ministro italiano) Menabrea, após uma visita de Babbage a Turim em 1840. A tradução para o inglês foi feita por Lady Ada Lovelace (filha do grande poeta Lord Byron e uma das poucas a entender completamente as idéias de Babbage) em 1843, e incluía “elaborations on the points made by Menabrea, together with some complicated programs of her own, the most complex of these being one to calculate the sequence of Bernoulli numbers.”[32].

Anos Finais e Legado

Apesar de Babbage nunca ter construído um computador mecânico operacional, seus conceitos de design foram provados estar corretos e recentemente (em 1991) um computador baseado em seus desenhos foi construído em Londres – pesa algumas centenas de quilos e é operado por uma manivela, mas todos os resultados obtidos até agora foram corretos.

Infelizmente, Babbage nunca viu nenhum fruto de suas idéias revolucionárias, como ele escreveu em 1851: “The drawings of the Analytical Engine have been made entirely at my own cost: I instituted a long series of experiments for the purpose of reducing the expense of its construction to limits which might be within the means I could myself afford to supply. I am now resigned to the necessity of abstaining from its construction…”[33], mas apesar dessa afirmação, ele nunca desistiu inteiramente que seu motor analítico iria ser construído, como escreveu em 1864: “(…) if I survive some few years longer, the Analytical Engine will exist…”[15].

Babbage morreu no dia 18 de outubro de 1871, com poucas pessoas sequer sabendo quem era ele. Apenas uma carruagem (da Duquesa de Somerset) acompanhou o cortejo para seu enterro; a Royal Society não emitiu nenhum obituário, e o New York Times chegou a ridicularizá-lo em partes [4].

Um comitê foi apontado pela British Association após sua morte para reportar sobre a possibilidade de se concluir o design do motor analítico, o qual concluiu que sua realização poderia marcar uma era na história da computação igualmente memorável àquela da introdução dos logaritmos.

Eles, sem dúvida, subestimaram o motor analítico. A construção dos computadores modernos, logicamente similares ao design de Babbage, mudou o curso da matemática e podemos dizer, sem exageros, que mudou também o mundo inteiro.

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O autor

Lucas Sigaud é bacharel, Mestre e Doutor em Física pela PUC-Rio, tendo concluído seu doutorado em Física Estatística Teórica. Trabalha também na área de colisões atômicas na UFRJ, onde estuda a interação de elétrons com gases como água, amônia e CFCs.

A Comunidade SteamPunk, de Fábio Ori

Matéria publicada no site OutraCoisa.com.br

5 de Dezembro de 2006 marca um evento muito importante para o SteamPunk no Brasil, quando o franco crescimento da rede social Orkut estava já influenciando milhares de pessoas e disponibilizando um meio democrático de difusão de informações.

Foi neste cenário que Fábio Ori da Veiga, então com 20 anos, resolveu criar a primeira comunidade Brasileira de SteamPunk no Orkut, iniciativa pioneira que viria a se transformar no centro inequívoco de encontro dos entusiastas de do gênero.

Contando com quase 300 membros, a comunidade serve de fonte de informações e ponto de encontro para gente que ainda não sabe bem onde encontrar material em português e que deseja se aprofundar mais no material internacional.

Estabelecida um ano antes da confecção do SteamPunk.com.br, a comunidade influenciou o crescimento do Conselho SteamPunk desde o início e serviu de pedra fundamental para o crescimento do movimento.

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Nikola Tesla ~ Biografia

Tantos epítetos acompanham a figura do croata naturalizado americano Nikola Tesla que o do título acima torna-se apenas mais um: “O Gênio que Iluminou o Mundo”, “O Santo Patrono da Eletricidade Moderna”, “O Pai da Física”, “O Homem que Inventou o Século XX”, “O Gênio Pródigo”, “O Mestre da Ionosfera”, “O Criador da Segunda Revolução Industrial”, entre outros. A eletricidade como nós conhecemos e utilizamos é atualmente gerada e trasmitida graças às invenções de Tesla, cuja maior conquista – o motor de indução por corrente alternada – é a responsável pela iluminação de todo o planeta.

E, curiosamente, não é dos nomes de inventores mais conhecidos entre o público leigo – nomes como Thomas Edison chegaram muito mais facilmente aos ouvidos da massa. No entanto, em recente votação promovida pela Discovery Channel, ficou entre os 100 maiores americanos de todos os tempos. A Life Magazine, em 1997, nomeou Tesla como um dos 100 homens mais famosos do último milênio. Durante o seu auge, ocorrido no fim do século XIX, Tesla era o inventor e físico mais conhecido da América do Norte, quiçá do mundo.

Recentemente, a figura de Tesla vem sendo ressuscitado no cinema e literatura, trazendo um renovado reconhecimento daquele que foi um dos homens mais geniais da história: filmes como “O Grande Truque”, onde o cientista é interpretado por David Bowie (e é responsável pelo toque Steampunk do longa), e livros como “Tudo Se Conta”, de Toni Jordan, onde a personagem principal tem Tesla como ídolo, contribuem fortemente para essa merecida fama.

A Juventude

Nikola Tesla nasceu no dia 10 de julho de 1856 em Smiljan, parte à época do Império Austro-Húngaro, na região onde hoje fica a Croácia. Filho de um padre sérvio ortodoxo, Milutin Tesla, e uma inventora (cujo trabalho era aplicado a serviços domésticos), Djuka Mandic, estudou na Realschule em Karlovac, no Instituto Politécnico de Graz (hoje na Áustria) e na Universidade de Praga (República Tcheca). Inicialmente sua intenção era se especializar em física e matemática, mas logo ficou fascinado com eletricidade.

Começou sua carreira como um engenheiro elétrico em uma companhia telefônica em Budapeste, em 1881, e foi lá que, ao caminhar pelo parque municipal com um amigo, a solução para o problema do campo magnético girante (um princípio físico fundamental e que futuramente seria a base para praticamente todos os aparelhos que se utilizam de corrente alternada) veio como um lampejo a sua mente. Desenhando diagramas na areia, Tesla explicou a seu amigo o seu brilhente princípio, e como ele poderia ser aplicado na construção de um motor de indução. Depois de Budapeste, Tesla se juntou ao Continental Edison Company em Paris, onde basicamente projetava dínamos. Em 1883, ele construiu, de forma bem sucedida, um protótipo do seu motor de indução. No entanto, não conseguiu atiçar o interesse de ninguém na Europa; por isso, aceitou a oferta de trabalhar para Thomas Edison em Nova York – seu sonho de infância era ir aos Estados Unidos para utilizar o poder das Niagara Falls.

Charles Batchelor, ele próprio um brilhante inventor, enviou uma carta de apresentação em 1884 a seu colega Thomas Edison, na qual dizia: “Eu conheço dois grandes homens: um é o senhor, e o outro é este jovem”. O jovem era Nikola Tesla, tímido mas confiante, que chegava a Nova York, onde moraria pelos próximos 59 anos.

AC/DC: A Guerra das Correntes

Após melhorar a linha de dínamos de Edison, em seu laboratório, começou a grande divergência entre Tesla e Edison quando ao uso de corrente alternada ou direta. Este desentendimento resultou na chamada “Guerra das Correntes”, onde Edison lutou uma batalha perdida para desesperadamente proteger seu investimento em equipamento e instalações que se utilizavam de corrente direta.

A idéia para os motores e sistemas elétricos de Tesla foi apresentada por ele em 1888 em um artigo científico clássico, intitulado “A New System of Alternating Current Motors and Transformers”, ao Instituto Americano de Engenheiros Elétricos. O industrialista e inventor George Westinghouse foi um dos mais impressionados – mais ainda após uma visita ao laboratório de Tesla, onde viu um modelo de sistema multifásico consistindo de um dínamo de corrente alternada, transformadores e um motor AC. Começava aí a parceria perfeita entre os dois, que resultou na utilização em escala nacional da eletricidade.

Tesla demonstrou a falta de eficiência das casas de força de corrente direta que Edison construiu ao longo do litoral leste dos E.U.A. O segredo, dizia ele, era usar corrente alternada, pois para ele todas as energias eram cíclicas. De fato, as lâmpadas de Edison eram fracas e ineficientes quando alimentadas por corrente direta, além de seu sistema ter a desvantagem absurda da corrente não poder ser transportada para além de duas milhas devido a sua impossibilidade de se empregar a alta voltagem necessária para transmissões a longas distâncias. Isso fazia com que, consequentemente, uma estação de força era necessária a cada duas milhas. Isto porque a corrente direta flui continuamente em uma direção, enquanto corrente alternada muda de direção entre 50 e 60 vezes por segundo, e pode ser levada a valores muito altos de voltagem, minimizando a perda a longas distâncias – o futuro pertencia à corrente alternada.

A guerra aconteceu porque Edison não quis perder seu império de corrente direta (DC), enquanto Tesla, após desenvolver sozinho um sistema multifásico de geradores de corrente alternada (AC) e registrar 40 patentes sobre ele (compradas por George Westinghouse, determinado a suprir os Estados Unidos com o sistema inovador de Tesla), demonstrou ser o DC um sistema ultrapassado, enquanto o seu era tecnologicamente melhor. E isso resultou, mesmo com todo o poder e a influência política, em uma vitória para Tesla e Westinghouse – e para o progresso mundial.

As Conquistas de Tesla

Tesla admirou o mundo ao demonstrar, na World Columbian Exposition de Chicago (em 1893), as maravilhas da corrente elétrica alternada, que viria a se tornar o padrão no século XX.

O motor de indução AC é hoje utilizado largamente no mundo inteiro, com aplicações tanto industriais quanto residenciais. A sua distribuição iniciou a revolução industrial na virada dos séculos XIX e XX, e mudou o mundo, sendo considerada uma das dez maiores invenções de todos os tempos.

Em 1895, Tesla projetou a primeira hidrelétrica do mundo para geração de corrente alternada (e a terceira geral) em Niagara Falls, a qual foi a sua vitória final – e durante muitos anos a maior do mundo. O feito foi divulgado mundialmente na imprensa, e Tesla foi elevado à condição de herói – a ponto do Rei Nikola de Montenegro conferir a Tesla a Ordem do Danilo.

Mas Tesla era um pioneiro em muitos campos, não apenas na eletricidade, tendo mais de 700 patentes registradas em seu nome. A bobina Tesla, inventada por ele em 1891 (ano que ganharia a cidadania americana), é largamente utilizada hoje em dia em rádios, televisores e outros equipamentos eletrônicos, sendo considerado o pai do rádio e dos sistemas de transmissão modernos. Entre suas descobertas estão a luz fluorescente, o raio laser, comunicações sem fio, transmissão de energia elétrica sem fio, controle remoto, robótica, turbinas e veículos aéreos com decolagem vertical. Sua visão incluía ainda a exploração da energia solar e do poder dos oceanos. Ele previu comunicações interplanetárias e satélites artificiais.

Seus princípios de telegrafia sem fio foram publicados no Century Magazine em 1893. Em 1896, na Electrical Review, foram publicadas imagens de raio-X de um homem, feitas por Tesla com um aparelho de design próprio. Elas apareceram na mesma época que Roentgen anunciou sua descoberta de raios-X. Tesla e Roentgen nunca brigaram por prioridade – Roentgen parabenizou Tesla pela sofisticação de suas imagens, enquanto Tesla chegou a escrever o nome de Roentgen em um de seus filmes de raio-X. Durante esses experimentos, Tesla inventou o tubo de vácuo especial emissor de luz, que é usado em fotografia.

O sistema básico do rádio foi patenteado em 1896 por Tesla (baseado em trabalhos próprios, bem como de Maxwell, Hertz e Logde), com diagramas esquemáticos descrevendo todos os elementos básicos do transmissor por rádio que seriam posteriormente usados por Marconi, que se apropriou dos projetos de Tesla para estabelecer a primeira comunicação sem fio através do Atlântico em 1901, ganhando o Nobel por isso em 1909. No entanto, a primeira transmissão sem fio foi conseguida por Tesla cinco anos antes entre dois pontos distantes dentro da cidade de Nova York, tanto que a Suprea Corte dos Estados Unidos, em 1943, considerou a patente de Marconi inválida. Seus princípios foram utilizados pela Lowenstein Radio Company (sob licença da patente de Tesla) para instalar rádios de comunicação em embarcações navais militares americanas desde antes da primeira guerra mundial.

Em 1899, Tesla construiu uma estação experimental em Colorado Springs, para estudar alta tensão, eletricidade de alta freqüência e outros fenômenos. Quando o transmissor amplificador da bobina Tesla da antena externa era energizado, criava fagulha de até 10 metros de comprimento, que podiam ser vistas a uma distância de até dez milhas.

Tesla ficou lá por pouco menos de dois anos, mas lá fez a descoberta que considerou a mais importante da carreira – as ondas estacionárias terrestres. Com essa descoberta, ele provou que a Terra podia ser usada como um condutor elétrico, podendo ser utilizada como um diapasão para as vibrações elétricas de uma certa freqüência. Ele também acendeu 200 lâmpadas sem fios a uma distância de 40 km e criou o raio artificial. Ele chegou a acreditar que recebeu sinais de outros planetas em seu laboratório, mas isso foi largamente desacreditado.

O antigo hotel Waldorf Astoria foi a residência de Nikola Tesla durante muitos anos, onde viveu no auge de seus poderes intelectuais e financeiros e organizava jantares elaborados, convidando pessoas famosas que testemunhavam experiências elétricas espetaculares em seu laboratório.

Tesla, Morgan e Wardenclyffe

John Pierpont Morgan era um investidor, bancário e colecionador de arte americano que dominava o corporativismo financeiro e a consolidação industrial de sua época, chegando a promover a junção da Edison General Electric e da Thompson-Houston Electric Company, formando a General Electric. Diz-se que Morgan salvou a economia norte-americana por duas vezes na virada do século. Ele tinha uma suíte presidencial exclusiva no Titanic, mas cancelou no último minuto a sua presença na viagem inaugural. Este poderoso homem se interessou pelo trabalho de Tesla em 1900.

Com o suporte financeiro de Morgan, Tesla construiu o laboratório Wardenclyffe, e sua famosa torre de transmissão, em Shoreham entre 1901 e 1905. A torre tinha impressionantes 57 metros de altura e um domo de 21 metros de diâmetro, feito de cobre, que continha um transmissor amplificador. Segundo planejado, seria o primeiro sistema de broadcasting do mundo, transmitindo tanto sinais quanto energia sem fios para qualquer ponto do globo, transformando a Terra em um dínamo gigante que poderia projetar sua eletricidade em quantidades ilimitadas em qualquer lugar do mundo.

O conceito de Tesla permitiria energizar transatlânticos, destruir navios de guerra, administrar indústrias e sistemas transportes e enviar comunicações instantaneamente através do planeta. Para estimular a imaginação do público, Tesla sugeriu que seria possível até mesmo comunicação interplanetária. Muitos jornais e periódicos entrevistaram Tesla e descreveram o seu novo sistema de alimentar toda a indústria do mundo sem utilizar fios.

No entanto, Morgan no fim acabou retirando seus fundos. A disputa entre Morgan e Tesla sobre a utilização da torre culminou na célebre frase do investidor: “se qualquer um pode tirar energia da torre, onde nós instalaremos o medidor?”.

Para a frustração de Tesla (a maior de sua vida), a torre ficou incompleta até 1917, quando foi destruída por razões de segurança durante a primeira guerra mundial. O local onde a torre de Wardenclyffe estava ainda existe, com as fundações intactas.

A Comunidade Científica

Tesla deu palestras à comunidade científica sobre suas invenções em Nova York, Filadélfia e St. Louis, e ante organizações científicas tanto na Inglaterra quanto na França, em 1892. Essas palestras, bem como seus artigos na década de 1890, causaram larga admiração entre seus contemporâneos e ajudaram a popularizar suas invenções, inspirando muitos jovens a entrar o novo campo de ciência elétrica e de rádio.

Ele escreveu muitos artigos autobiográficos para o proeminente periódico Electrical Experimenter, que depois foram reunidos em um livro, intitulado My Inventions. Um de seus dons era grandes poderes de visualizações e uma memória excepcional, possibilitando a ele construir, desenvolver e aperfeiçoar suas invenções completamente em sua mente antes de passá-las para o papel.

A celebridade de Tesla na virada do século estava no auge: ele era o superstar do momento, com suas descobertas, invenções e visão tendo aceitação geral pelo público, pela comunidade científica e pela imprensa, com intensa cobertura pelos periódicos científicos, pelos jornais diários e semanais e nas mais importantes publicações literárias e intelectuais da época.

Em 1894, recebeu os títulos de doutorado honorário tanto pela Universidade de Columbia quanto por Yale, além da medalha Elliot Cresson, concedida pelo Instituto Franklin. Em 1934 recebeu da cidade de Filadélfia a medalha John Scott pelo seu sistema multifásico. Tesla era um membro honorário da National Electric Light Association e um participante da American Association for the Advancement of Science.

Em 1915 foi noticiado pelo New York Times que Tesla e Edison iriam dividir um Prêmio Nobel de Física, mas nenhum foi agraciado. Os motivos nunca foram descobertos, mas rumores indicam que Tesla recusou porque não dividiria um prêmio com Edison e porque Marconi já havia recebido o que era seu por direito.

No seu aniversário de 75 anos (em 1931), quando apareceu na capa da revista Time, recebeu cartas de cumprimentos de mais de 70 pioneiros na ciência e engenharia, incluindo Albert Einstein e Mark Twain.

Morte e Homenagens Póstumas

Nikola Tesla faleceu no dia 7 de janeiro de 1943 no Hotel New Yorker, onde morou nos últimos dez anos de sua vida. Um funeral foi realizado na Catedral St. John the Divine, em Nova York, com mais de 2000 presentes, incluindo alguns prêmios Nobel. Foi cremado e suas cinzas encontram-se em uma esfera de ouro, sua forma favorita, no Museu Tesla em Belgrado.

Sobre Tesla, o Vice Presidente Behrend do Instituto de Engenheiros Elétricos disse o seguinte: “Se nós eliminássemos do mundo industrial os resultados do trabalho do Sr. Tesla, as rodas da indústria cessariam sua rotação, nossos carros e trens elétricos parariam, nossas cidades se escureceriam e nossos moinhos estariam sem uso e mortos. Seu nome marca um ponto crucial no avanço da ciência.”, concluindo com uma paráfrase do poema de Alexander Pope em homenagem a Newton: “Nature and nature’s laws lay hid by night / God said ‘Let Tesla be’ and all was light” (“A natureza e suas leis estavam escondidas na noite / Deus disse ‘Faça-se Tesla’ e tudo se iluminou”).

Tesla e o Steampunk

Tesla é relacionado ao mundo Steampunk por diversos motivos. O primeiro deles é a época em que viveu – o final do século XIX e o início do XX. Além disso, foi ele o responsável por todas as inovações tecnológicas que nós, amantes do cenário Steampunk amamos tanto no que diz respeito a eletricidade – basicamente toda a tecnologia não-vapor dos cenários steampunk tem a influência direta dos trabalhos de Tesla.

Fora que sua visão absolutamente inovadora e futurista para a época o colocam quase como um personagem de certas ambientações do gênero (quem imaginaria que alguém pudesse supor estar recebendo comunicações de outros planetas em pleno fim do século XIX??). Imaginar as fagulhas saindo do alto de sua antena em Colorado Springs, a construção da torre Wardenclyffe ou os experimentos realizados para seus convidados após um jantar no Waldorf Astoria são como imaginar cenas de um filme de ficção científica vitoriana. Tanto que o personagem interpretado por David Bowie em “O Grande Truque” tem um ar místico-tecnológico não muito longe da realidade (apesar de sua invenção no filme, a máquina de clonagem, o ser).

Nenhuma outra figura do século XIX engloba tão fortemente o estilo, a tecnologia, o jogo de cena e a mistura de genialidade e mágica que Tesla projetava. E por isso, não há nenhum cientista tão Steampunk quanto Nikola Tesla.

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O autor

Lucas Sigaud é bacharel e mestre em física pela PUC-Rio, e está concluindo seu doutorado em física estatística teórica. Trabalha também na área de colisões atômicas na UFRJ, onde estuda a interação de elétrons com gases como água, amônia e CFCs. Além disso, é redator do site OutraCoisa.com.br e escritor.