5 de Dezembro de 2006 marca um evento muito importante para o SteamPunk no Brasil, quando o franco crescimento da rede social Orkut estava já influenciando milhares de pessoas e disponibilizando um meio democrático de difusão de informações.
Foi neste cenário que Fábio Ori da Veiga, então com 20 anos, resolveu criar a primeira comunidade Brasileira de SteamPunk no Orkut, iniciativa pioneira que viria a se transformar no centro inequívoco de encontro dos entusiastas de do gênero.
Contando com quase 300 membros, a comunidade serve de fonte de informações e ponto de encontro para gente que ainda não sabe bem onde encontrar material em português e que deseja se aprofundar mais no material internacional.
Estabelecida um ano antes da confecção do SteamPunk.com.br, a comunidade influenciou o crescimento do Conselho SteamPunk desde o início e serviu de pedra fundamental para o crescimento do movimento.
Leia a Entrevista de Fábio Ori
Lucas Sigaud: Quem é Fábio Ori da Veiga?
Fabio Ori: Tenho 22 anos e curso o 3º ano de Design Gráfico. Moro atualmente - e desde sempre - em Joinville, Santa Catarina, cidade que adoro e da qual eu não pretendo sair tão cedo. Falando mais precisamente sobre como sinto que sou hoje acredito que tudo se baseia na maneira de perceber o mundo. Entre as muitas coisas que aprendi na faculdade de está a forma como enxergamos e interagimos a partir dessa percepção. Busco aplicar esse conceito em meu trabalho e, sobretudo na vida. Sendo mais específico seria como conseguir captar todas as todas as cores de uma fotografia, ou descrever todas as linhas de um objeto. Trata-se de olhar por todos os ângulos possíveis, mas não necessariamente aceitar nenhuma dessas visões como única e verdadeira.
Como ilustrador e artista você parece usar o CyberPunk como constante fruto de inspiração. A estética SteamPunk te inspira na mesma medida?
Fabio Ori: Digamos que não tanto quanto eu gostaria no momento. Pra buscar essa inspiração nem sempre é fácil, é preciso despender algum tempo com coleta de imagens e rascunhos. Idéias surgem várias, mas geralmente o resultado ainda está aquém do esperado para finalizar o trabalho. A falta de tempo também uma vilã quando se deseja desenvolver trabalhos autorais.
Fabio Ori: Não sei dizer especificamente. Sempre gostei de SciFi desde pequeno, e como todo bom garoto nerd eu adorava “De Volta Para O Futuro”. Acredito que assim como eu, todo fã de SteamPunk é um fascinado por viagem no tempo. Aliás, não sei se com todos ocorreu da mesma forma, mas eu já gostava de SteamPunk muito antes de saber que se denominava dessa forma. Lembro de comentar com um amigo há uns cinco anos atrás sobre como era o estilo, e ele chamava de anacrotecnologia. De certa forma não está errado, mas não é um termo específico. Quando “SteamBoy” foi lançado eu me interessei por ser do mestre Katsuhiro Otomo, criador de Akira. Foi somente nessa época que tomei conhecimento do termo.
Como começou a comunidade “Steampunk” no orkut, que já tem quase 2 anos?
Fabio Ori: Lembro que, na época que a comunidade surgiu, eu encontrava pouquíssimo material sobre o estilo - em português tampouco. Criei a comunidade porque a única que havia sobre o assunto era em inglês. Eu não tinha grandes pretensões, e os primeiros membros foram amigos que não estavam tão conectados ao tema. Aos poucos ela cresceu, mas gostaria que o orkut rendesse discussões mais interessantes, digamos de uma forma geral, e não especificamente sobre a comunidade Steampunk.
Como você vê o cenário SteamPunk no mundo?
Fabio Ori: Com certeza bem mais interessante do que poucos anos atrás. A produção de conteúdo e a conexão das pessoas que produzem está bem fundamentada. Vejo como uma conseqüência da relevância que a Internet possui. De outra forma não haveria esse nível de comunicação entre apreciadores de um nicho tão específico. Aliás, acredito que a visão atual do SteamPunk esteja intimamente conectada a nova forma que o gerar o conteúdo da rede, onde cada um de nós produz um pouco de tudo que consumimos. Principalmente no que diz respeito ao espírito “crie-você-mesmo” do SteamPunk.
E no Brasil?
Fabio Ori: No Brasil sempre permanece aquela sensação de que poderia ser melhor. As pessoas poderiam estar mais bem informadas. Percebo isso até mesmo na faculdade de design. Você espera um pouco mais de bagagem visual e estética, mas existe pouco interesse. Sem dúvida não há como negar iniciativas como do Conselho Steampunk em promover o gênero. A realização de um evento já nos diz muito sobre a vontade de muitas pessoas de que o movimento se desenvolva.
Qual a diferença entre o movimento SteamPunk hoje e há alguns anos atrás?
Fabio Ori: Se fosse falar de como eu percebo o movimento na minha cidade diria que não mudou muito. Geralmente os fãs de SteamPunk daqui são Otakus e Cosplayers, que estão mais interessados na cultura japonesa. O que me faz perceber de forma diferente é justamente o aumento da produção de conteúdo. Sem querer ser redundante, mas todos esses fenômenos são possíveis graças à Internet, que permite o desenvolvimento de comunidades.
Quais são suas obras favoritas relacionadas ao Steampunk (livros, filmes, etc.)?
Fabio Ori: Em função da minha limitação com o inglês, só pude ler os clássicos. Já no cinema é difícil eleger favoritos, mas gosto muito de “A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça” e “O Grande Truque”. Na animação o “Steamboy” e a série “Full Metal Alchemist”. Já nos quadrinhos meu favorito é “A Liga Extraordinária”.
Como você acha que o Steampunk se compara aos outros estilos próximos, como o Cyberpunk?
Fabio Ori: Acredito que esses estilos estejam intimamente ligados pelo fascínio que temos quanto à tecnologia. Gostamos de imaginar como será solução encontrada pelo autor para representar determinado objeto ou mecanismo dentro dessa distopia. Nesse viés podemos englobar toda visão do autor de como seria essa sociedade e como as pessoas se relacionariam. Vejo isso como uma vontade que temos de adentrar um meio que difere muito daquele em que estamos inseridos, e naturalmente temos curiosidade em conhece-lo.
A estética Steampunk é muito trabalhada visualmente, como pode ser comprovado em graphic novels e filmes antigos (como “Metropolis”) e atuais (como o mencionado “O Grande Truque”). Na sua opinião, o que é tão atraente na estética SteamPunk?
Fabio Ori: A estética SteamPunk é interessante no que diz respeito aos muitos elementos visuais que podem ser utilizados. Como exemplo, as engrenagens e mecanismos, as vestimentas e acessórios, e sem dúvida alguma no desenvolvimento de arquétipos. Esses elementos compõe um universo muito rico, que instigam o ímpeto curioso e inventivo, típico do espírito SteamPunk.
Fale um pouco de seu trabalho gráfico e de como você incorpora o SteamPunk nele.
Fabio Ori: Trabalho basicamente com ilustração comercial. Durante muito tempo fui fortemente influenciado pelo estilo de quadrinhos japonês (mangá). Mas tenho me afastado dessa linha tanto pela necessidade do mercado por trabalhos mais generalistas quanto pelas necessidades artísticas pessoais. As influencias CyberPunk e SteamPunk acabam limitadas aos trabalhos autorais.Como citei anteriormente eu não tenho aplicado a estética SteamPunk da maneira como gostaria. Por enquanto tenho incorporado mais ao vestuário de personagens. Gosto muito do estilo militar do século XIX, e busco introduzir releituras desse estilo em meu trabalho.
Em “O Grande Truque”, um dos vínculos mais estreitos com o SteamPunk vem na figura de Nikola Tesla. Quais outros personagens históricos você acha que remetem ao SteamPunk?
Fabio Ori: Acho que nenhum personagem histórico se encaixa tão bem na literatura Steampunk quanto Tesla (biografia), no entanto sempre pode se associar essa essência a grandes inventores do século XXI. Aliás, acredito que essa essência seja a maior inspiração para a ciração do gênero. Dentre os personagens históricos que remetem ao estilo posso citar Thomas Edison, os Irmãos Lumière e o meu favorito Santos Dumont.
O que você acha da iniciativa de entidades como a Sociedade Brasileira de Steampunk e o Conselho Steampunk (com suas lojas do Rio de Janeiro e São Paulo)? Que contribuição você acha que elas podem dar ao movimento?
Fabio Ori: Só o fato de proporcionar um ponto de encontro para que os fãs possam se relacionar já é fantástico. Confesso que me admirou quando vi a página do Conselho SteamPunk pela primeira vez e percebi a qualidade do conteúdo e a dedicação dos envolvidos. Essa iniciativa tende a divulgar de maneira séria e como o Steampunk merece. Espero que dessa forma cada vez mais pessoas, que muitas vezes gostam, mas não conhecem bem o estilo possam ter um contato mais íntimo com os elementos.
O site http://www.steampunk.com.br recentemente inaugurou o SteamFeed, a fim de agregar artigos, trabalhos, fóruns, etc., relacionados com SteamPunk. O que você achou dessa iniciativa? Tem alguma sugestão de serviço para a comunidade SteamPunk?
Fabio Ori: Algo que obviamente eu percebi no site foram os esforços em promover um meio bastante democrático e igualitário de participação. O feed reforça essa política adotada pelo site. O interessante é que além de um espaço para a publicação dos trabalhos, possa incentivar quem pretende produzir. Como sugestão, apesar de saber da dificuldade em produzir, acho que seria muito legal um podcast ao estilo do EscribaCafé, com contos SteamPunk e efeitos sonoros. Camisetas do Conselho SteamPunk também são uma boa pedida.
O que podemos esperar ver, no futuro, em suas obras?
Fabio Ori: A partir do ano que vem pretendo mergulhar cada vez mais fundo no universo estético do SteamPunk e do CyberPunk já que este será o tema principal do meu projeto de TCC que será finalizado em 2010. O projeto contará com uma pesquisa quanto ao background e os arquétipos desses estilos, que posteriormente resultará em uma HQ. Dessa forma posso adiantar que 2009 será um ano de muita experimentação em meu trabalho.
Se você pudesse traçar um futuro para o SteamPunk no país, o que gostaria de ver acontecer?
Fabio Ori:Gostaria que cada vez mais pessoas pudessem ter o prazer de desvendar o que é Steampunk e pudessem usufruir mais completamente toda a riqueza que o estilo proporciona. E além, que venham mais eventos, mais participação dos amantes do gênero e muito mais lenha as fornalhas!
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Uma das coisas mais interessantes acerca da produção cultural é o fato de que o espectador, independente das intenções do autor de uma obra, resignifica aquilo que está observando.
O próprio SteamPunk é um construto, uma perspectiva muito atual, uma forma de olhar para o passado e imaginar um momento histórico que jamais aconteceu.
Mais que isso, autores como Julio Verne jamais sequer poderiam ter escutado o termo SteamPunk e, no entanto, suas obras são comumente associadas a este sub-gênero da Ficção Científica.
É muito comum, em discussões apaixonadas ou não, que se discorde sobre o que é e o que não é SteamPunk, uma vez que há espectadores mais puristas e espectadores menos puristas.
Freqüentemente os envolvidos com o movimento SteamPunk ouvem perguntas como “O que é SteamPunk?”. Para além das mais diversas definições, seja da Wikipedia, do SteamPunk.com.br ou do SteamPunkBrasil.com, existe o ponto de vista de quem está olhando para a obra.
Sempre vai haver discussão acerca de se algo é Hard Science Fiction ou não, se Science Fantasy é ou não um gênero em si mesmo ou um sub-gênero, e toda sorte de discordâncias a esse respeito. Cultura, contudo, não é tanto sobre seu conjunto de definições quanto acerca de descoberta, fruição e conhecimento.
É bastante comum que blogs como o SteamPunk.com.br ou o BoingBoing - do escritor de Ficção Científica Corey Doctorow - causem afronta aos mais puristas.
A discussão é, porém, tão infrutífera quanto se a banda tal é ou não Rock Progressivo, se a Bíblia é ou não literal ou o sobre o que é Arte.
Todas estas questões são interessantes se levadas em um nível desapaixonado e indo além das definições “almanáquicas” ou de dicionário.
Filmes passados na década de 40, 50 e 60 podem ter elementos e influência SteamPunk?
Em “HellBoy”, que começa na Segunda Guerra Mundial, a influência estética do gênero é muito forte e está não só a serviço da narrativa, mas faz parte da “paleta” com a qual o artista pinta o resto do filme.
É claro para todos que não houve guitarra, computador com tela de LCD ou arma de raios na Era Vitoriana. Entretanto, o SteamPunk é muito menos uma definição e muito mais uma ferramenta a serviço da produção de subjetividade, seja ela um filme, uma ilustração ou um dispositivo eletrônico.
É claro também que, independente da referência estética Vitoriana, o SteamPunk não precisa se passar na Era Vitoriana, do contrário “Metrópolis”, “Hellboy” e “Rocketeer” não poderiam ser listados dentre os filmes inspirados em SteamPunk.
É fato, inclusive, que muitas das obras associadas hoje com a proposta estética SteamPunk nasceram antes mesmo do termo sequer ser cunhado, o que significa que o autor jamais teve a intenção de se alinhar com isso ou com aquilo.
A intenção do autor, apesar de ser uma ótima bula e uma demonstração da genialidade de quem assina a obra, é mero epifenômeno diante da resignificação empreendida pelos espectadores, que vão resignificar e fruir a obra muito depois da morte do autor e do esquecimento da posologia por ele decidida.
Não há, enfim, uma junta diretora que defina o que é SteamPunk. As definições existentes são somadas a flexibilidade cognitiva de cada um para gerar uma diversidade de perspectivas da realidade, como é com tudo mais na vida.
Se você quiser então saber “O que é SteamPunk”, dê uma lida aqui, ali e acolá, mas depois de ler as definições, liberte-se delas.
Definições mostram o caminho, mas ficam no caminho e acabam engessando a imaginação.
A vocação máxima do Conselho SteamPunk é a colaboração. Criar uma empresa ou uma organização centralizadora, além de dar muito trabalho, não atende aos interesses dos entusiastas da cultura SteamPunk e menos ainda a toda uma comunidade que não conhece o gênero e é consumidor em potencial deste tipo de produção de subjetividade.
No espírito de unir a comunidade SteamPunk, donos de site e blogueiros - estes últimos sabidamente aqueles que são a ponta de lança de boa parte da produção de conteúdo na Web - o SteamPunk.com.br, depois de conferência com o pessoal do Conselho SteamPunk § Loja São Paulo, resolveu colocar no ar o SteamFeed Brasil, um serviço gratuito de redristribuição de conteúdo.
A idéia de uma comunidade SteamPunk realmente colaborativa e unida é um sonho de todos aqueles que estão envolvidos nos projetos do Conselho SteamPunk. Se você também tem vontade de participar desta corrente. Se você tem um site ou blog dedicado a cultura SteamPunk envie-nos o endereço o quanto antes.