A riqueza do movimento SteamPunk não é novidade, entretanto o número crescente de veículos jornalísticos de todos os segmentos interessados em divulgar e comentar o gênero é surpreendente.
No dia 11 de Agosto de 2009, a revista que resolveu fazer uma matéria acerca do assunto foi a CartaCapital, revista bem conceituada, com tiragem de 75 mil exemplares e vencedora do Prêmio Comunique-se de Imprensa, na categoria Executivo de Veículo de Comunicação.
E foi pelas mãos competentes do editor de internacional da CartaCapital – Antonio Luiz Monteiro Coelho da Costa – que foi ao ar a matéria que cita o Conselho SteamPunk, este site e algumas de nossas Lojas.
11/08/2009 16:34:20 – por Antonio Luiz M. C. Costa
Uma subcultura curiosa toma corpo no Brasil, imitando e até sofisticando um modelo originário do Reino Unido e também com certa popularidade nos EUA: o steampunk. Na versão verde-amarela, conta com uma estrutura que inclui um Conselho SteamPunk criado em 2008, com um bem-cuidado site na internet e Lojas regionais no Rio de Janeiro, São Paulo e Rio Grande do Sul.
Ocasionalmente, essas “lojas” – terminologia que imita conscientemente a linguagem maçônica, tão popular no século XIX – promovem eventos como o de 26 de julho, no qual um grupo de jovens reuniu-se, primeiro na Estação da Luz, depois no Memorial do Imigrante de São Paulo para passear, vestidos como damas e cavalheiros do século XIX, na velha Maria Fumaça que percorre algumas centenas de metros de trilhos junto ao Memorial.
Assim como os punks propriamente ditos, é sob certos aspectos o que se costuma chamar de tribo urbana, mas essa é quase a única relação entre os dois movimentos. E uma peculiaridade desta nova subcultura é que não se associa a um estilo de música pop, como punks, metaleiros, emos e clubbers, ou ao culto a uma obra específica do cinema ou tevê, como os trekkers (fãs da série Star Trek, ou Jornada nas Estrelas), mas a um subgênero da literatura de ficção científica e da história alternativa, também conhecido como Steampunk.
O termo foi cunhado em 1987 por um autor estadunidense de ficção científica, K. W. Jeter, para classificar certas histórias escritas por ele mesmo e pelos colegas Tim Powers e James Blaylock. Ambientadas na época da Revolução Industrial, geralmente na Inglaterra vitoriana, procuravam reproduzir o clima, o estilo e as convenções da literatura de aventura científica da época, como os romances de Mary Shelley (Frankestein), Júlio Verne (Vinte Mil Léguas Submarinas) e H. G. Wells (A Máquina do Tempo), pioneiros do que mais tarde veio a se chamar “ficção científica”.
Jeter fazia uma analogia irônica com o subgênero cyberpunk, então no auge da popularidade. Neste caso, o nome – surgido em 1983, do título de um conto de Bruce Bethke – foi mais adequado. Trata-se de uma combinação de especulação sobre o desenvolvimento de tecnologias na moda nos anos 80, principalmente a informática, com uma visão de mundo pessimista e distópica. Personagens marginalizados, que muitas vezes imitam ou caricaturam a aparência, gíria e maneirismos dos punks propriamente ditos, lutam para sobreviver em um mundo violento, corrupto e poluído, no qual grandes corporações transnacionais controlam a política e a maior parte da sociedade.
No caso do steampunk, a velha revolução tecnológica do vapor (steam) está no lugar da nova revolução cibernética. A visão de mundo pode bem ser distópica, pois a Revolução Industrial foi um período de injustiças, desigualdades, degradação da humanidade e da natureza e de poder desenfreado do dinheiro, tanto quanto o capitalismo neoliberal de Thatcher, Reagan e Bush. Mas a linguagem e comportamentos propriamente punks estão fora de lugar: pelo contrário, os contos steampunk tendem a imitar o estilo altissonante dos romances de aventura do século XIX e seus heróis a comportarem-se como as idealizadas damas e cavalheiros desses tempos, geralmente burgueses ou nobres, mesmo que inconformistas.
Mas o parentesco e a analogia com o cyberpunk foi reforçada por aquela que veio a ser vista como a primeira grande obra da ficção steampunk – o romance The Difference Engine, de 1990, escrito justamente pelos dois maiores astros da ficção cyberpunk: William Gibson (autor da trilogia iniciada com Neuromancer) e Bruce Sterling (autor do romance editado no Brasil como Piratas de Dados e editor da pioneira antologia cyberpunk Mirrorshades).
The Difference Engine (A Máquina Diferencial) também não tem nada de punk, mas consolidou o nome e o subgênero não só pelos autores que teve como também por fazer uma ponte entre as duas temáticas. Gibson e Sterling imaginaram uma história alternativa do século XIX.
O pivô da mudança é Charles Babbage, matemático e inventor que, na vida real, a partir dos anos 1820 tentou construir a verdadeira “máquina diferencial”, uma complexa calculadora mecânica, programável como um computador e dotada de impressora. Babbage nunca conseguiu os recursos de que precisava para transformar seus desenhos em realidade, mas em 1989, uma equipe do Museu de Ciência de Londres montou sua máquina e mostrou que ela funcionava perfeitamente. O que, naturalmente, sugere a pergunta: o que teria acontecido se Babbage tivesse concretizado seu sonho e os computadores começassem a mudar a tecnologia e a sociedade mais de um século antes de terem aparecido na história real?
No mundo imaginado por Gibson e Sterling, a aceleração da mudança tecnológica que resulta da combinação da máquina a vapor com a máquina diferencial teria resultado em uma revolução comandada por Lorde Byron e na instauração de um regime tecnocrático liderado por cientistas, industriais e sindicatos operários.
Essa revolução concretiza e inverte ironicamente Sybil, ou as Duas Nações, romance sobre conflito e conciliação de classes que foi escrito, na história real, por Benjamin Disraeli, mais tarde primeiro-ministro favorito da rainha Vitória e um de seus lordes. No mundo alternativo, Disraeli não passou de escritor popular, enquanto George Byron, na vida real um grande poeta do romantismo inglês, torna-se líder político e o chefe do governo britânico.
No romance de Disraeli, reformas políticas traziam a paz social, simbolizada pelo casamento da jovem operária Sybil, filha de um agitador trabalhista, com o aristocrata Charles Egremont. Na releitura mais realista de Gibson e Sterling, Sybil é seduzida e abandonada por Egremont e torna-se uma prostituta.
De qualquer forma, o Império Britânico torna-se muito mais poderoso e incentiva a guerra civil dos EUA e sua fragmentação, enquanto o uso das máquinas de Babbage se generaliza a ponto de que cavalheiros vitorianos fazem compras com cartões de crédito, artistas projetam animações pixeladas nas telas de teatros e os governos de Lord Byron e Napoleão III podem registrar e controlar seus cidadãos por meio de cartões perfurados processados por máquinas imensas.
O lado distópico vem à tona com o “Fedor”, um episódio de inversão térmica e insuportável poluição em Londres. A cidade é parcialmente evacuada e cai em um estado caótico, durante o qual grupos revolucionários tentam tomar o poder, emulando a Comuna socialista e feminista que o Karl Marx dessa realidade alternativa liderava em Manhattan. Mesmo assim, os protagonistas comportam-se com a dignidade e a arrogância esperada de heróis vitorianos, convictos da superioridade de sua classe, sua nação, sua raça e seu sexo.
A ousadia de Gibson e Sterling em antecipar para o século XIX os perigos e possibilidades da cibernética consolidou o apelido steampunk. Por analogia, especulações sobre desenvolvimentos alternativos da história e sociedade em outras etapas da tecnologia e da história têm recebido alcunhas semelhantes, embora igualmente nada tenham a ver com o movimento punk.
Fala-se em clockpunk para antecipações semelhantes na Renascença e da Idade Moderna, explorando, por exemplo, o que aconteceria se os desenhos mais visionários de Leonardo da Vinci se tornassem realidade. Em dieselpunk para elucubrações sobre as possibilidades do mundo da eletricidade e do petróleo do início do século XX, a partir de projetos não realizados do inventor Nikola Tesla e de ideias populares na ficção científica estadunidense dos anos 1920 e 1930. E até mesmo em bronzepunk, para invenções alternativas na Antiguidade, como os espelhos incendiários e máquinas capazes de arrastar navios atribuídas a Arquimedes de Siracusa.
Embora tanto Gibson quanto Sterling tenham vários romances traduzidos e editados no Brasil, a começar pelos da fase cyberpunk, infelizmente, esse não foi o caso de The Difference Engine, aparentemente insólito demais para o gosto das tímidas editoras brasileiras de ficção científica.
Mas essa obra influenciou e continuou a influenciar não só a literatura de ficção científica, como também os quadrinhos e o cinema. Nestas mídias, principalmente na segunda, há menos espaço para se aprofundar em sutis ironias sobre a cultura e da política do século XIX e refletir sobre os rumos da sociedade e da tecnologia. Por outro lado, explora-se ao máximo o apelo nostálgico do vestuário e da estética do século XIX, abusando-se de rebites, caldeiras, anquinhas e cartolas, bem como a aparência exótica de máquinas com cilindros de latão e engrenagens à mostra. Pôde-se ver isso em vários filmes de razoável sucesso: As Loucas Aventuras de James West (1999), A Liga Extraordinária (2003, baseado em série de quadrinhos de Alan Moore de 1999), as animações japonesas Steamboy e O Castelo Animado (ambas de 2004), a mais recente versão de A Volta ao Mundo em 80 dias (de 2004, com Jackie Chan), Van Helsing (2004), A Bússola Dourada (2007) e outros.
Aparentemente, são essas fantasias visualmente exóticas, mais que o interesse pela cultura vitoriana ou pela especulação sobre caminhos alternativos da história, que seduzem os entusiastas do Conselho e das lojas Steampunk, muitos dos quais aplicam retroativamente o rótulo a obras não só anteriores como estranhas à proposta, como o Metropolis de Fritz Lang (1927), o 1984 de Michael Radford (baseado no romance de George Orwell, escrito em 1948), o Brazil de Terry Gilliam (1985), ou mesmo as obras de Verne e Wells, que em seu tempo pretendiam especular sobre futuros possíveis e não sobre uma realidade alternativa.
O importante, mesmo que a intenção original tenha sido especular sobre o futuro, parece ser a sensação de anacronismo, de se estar olhando não para o passado (como na ficção histórica), não para um futuro possível (como na ficção científica convencional), nem para uma fantasia à maneira de Tolkien, mas para um futuro do pretérito, algo que talvez pudesse ter existido: um olhar de lado, meio lúdico, meio sério, para a história da sociedade e da tecnologia.
É sempre bom fugir um pouco do famoso slogan de Margaret Thatcher e Francis Fukuyama, o TINA, There Is No Alternative – “Não há alternativa (ao status quo neoliberal dos anos 80 e 90)” e considerar como as coisas poderiam ser diferentes. O curioso é que, neste caso, trata-se geralmente de uma alternativa, em muitos aspectos, bem semelhante à realidade atual, com o Império Britânico e os financistas da City no papel dos EUA e de Wall Street.
Pode reforçar a ideia de que as roupas e maneiras podem mudar, mas a essência da sociedade foi e sempre será a mesma. Como também pode funcionar como alegoria ou caricatura de problemas atuais e mostrar o que têm de histórico e contingente, como dependem de desenvolvimentos específicos e podem vir a ser superados. É um campo no qual concepções opostas podem se expressar em um ambiente fantástico e de sabor nostálgico, mas ainda assim com uma relação bem clara com a realidade social, política e ambiental do século XXI.
O pleno desenvolvimento dessas possibilidades no Brasil depende, porém, de que o Steampunk não seja apenas consumido como moda ou como decoração de animês e aventuras hollywoodianas. Para ser criativo, precisa ser produzido e discutido como um subgênero literário e associado ao ponto de vista brasileiro ou à história (real e imaginada) de nosso país. Por enquanto, conta-se apenas com a recém-lançada antologia de contos Steampunk, da Tarja (R$ 39, 184 páginas), que inclui uma colaboração do autor desta coluna. Uma segunda antologia, a ser intitulada Vaporpunk, está sendo organizada pelo escritor Gerson Lodi-Ribeiro e é esperada para breve. Teremos então uma boa ideia de como se imagina, em terras tropicais, essa história paralela.
Bruce Sterling, autor norte americano de grande sucesso, representa muito para a Ficção Científica de um modo geral e bastante para o SteamPunk em particular.
Nascido em 1954, Bruce Sterling lançou seu primeiro romance em 1977, “Involution Ocean”, uma versão de “Moby Dick” (arrisco dizer inspirada em “Náufragos do Selene”, de Arthur C.Clarke), passada em uma cratera cheia de pó de baixa densidade.
Prolífico, Sterling produziu uma substancial quantidade de contos e romances até que, em 1986, começou a escrever uma antologia, junto com William Gibson, Rudy Rucker, John Shirley, Lewis Shiner e Pat Cadigan, que lançaria as bases do que é hoje conhecido como o gênero CyberPunk.
Não é segredo que o termo SteamPunk é diretamente derivado daquele último, e que K.W. Jeter – que criou o termo SteamPunk – não fez mais que substituir o paradigma Cibernética pelo ápice da tecnologia do Século XIX: o Vapor.
Foi com grata surpresa, portanto, que o Conselho SteamPunk descobriu que o próprio Bruce Sterling publicou chamada sobre nossa existência no blog Beyond the Beyond, da Wired – revista norte americana sobre tecnologia e a forma que a tecnologia afeta a cultura, a economia e a política, inspirada originalmente nas idéias de Marshall MacLuhan.
Não bastasse a menção pela qual nos sentimos muito orgulhosos, Bruce Sterling publicou nosso e-mail, comentando a escolha do termo “Lojas” (do inglês “Lodges”) – inspirado nas Lojas Maçônicas – e divulgando os sites de todas as regionais do Conselho SteamPunk, bem como nossas iniciativas.
A revista RPG Magazine deu seus primeiros passos no mundo virtual através de uma publicação em PDF cem porcento concebida para o público Internet.
O Conselho SteamPunk se orgulha de ter feito parte desta publicação com o conto “Rota de Fuga”, encomendado pela revista e que dá início a uma parceria muito especial entre os entusiastas do gênero e a RPG Magazine.
Se quiser você pode ler a revista no quadro abaixo:
- Deus do Céu! Basta! Basta! – murmurou o capitão em um misto de súplica e determinação enquanto a outra sessão de engrenagens diferenciais entrava em funcionamento.
O significado enigmático da frase proferida por ele começava a fazer sentido enquanto meu mecanismo, nunca antes utilizado, foi acionado pelos giroscópios ativados pelo casco que jogava com força de um lado para outro.
Eu estivera ouvindo o tempo todo, mas agora, com as novas funções acionadas, tudo parecia diferente. Embora os demais engenhos a bordo continuassem funcionando, boa parte do esforço mecânico e da força motriz fora desviado para manifestar este arremedo de consciência que lhes narra este evento.
Por instantes, enquanto engrenagens, roldanas, pinos, cordames e molas se tensionavam para dar vida a parte da decoração da biblioteca, meu corpo se desprendia da parede ancorada ao casco e testemunhava a fuga de alguns dos “convidados” do capitão.
Ao longo de toda embarcação gritos eram ouvidos e os tripulantes tentavam, a todo custo – e com minha ajuda – se livrar do redemoinho acerca do qual eu lhes avisara sem que me dessem ouvidos.
Eu já sabia do destino da nau, que acabara de emergir e começava a tomar todas as providências para poupar o máximo de vidas a bordo, mas havia pouca esperança para todas aquelas almas.
Os pistões começavam a funcionar, o vapor escapando pelas pequenas imperfeições inevitáveis em minha estrutura. O som repetitivo das engrenagens era previsível, mas por ser a primeira vez que eu as escutava e por serem estes os primeiros passos que eu ensaiava a descer do teto e da parede da biblioteca, era como se eu estivesse nascendo de uma gestação interminável.
O capitão não me dava atenção e, como que em transe, tentava resolver uma série de questões mecânicas de transferência de energia que não tinham mais qualquer relevância. Olhava-o por trás enquanto ele se esforçava com habilidade nos controles que acionara após retirar de cima deles a enorme edição do Alcorão que os escondia.
As espirais amplas que a embarcação agora descreviam pelas laterais do gigantesco redemoinho provocavam rangidos sinistros que provavelmente assustavam toda a experiente tripulação, mas o capitão continuava impassível.
Quando falei pela primeira vez ele não pestanejou, mesmo tendo o som sido mal articulado e sem significado – Agora não! – disse, aparentemente para minha manifestação.
- É o momento, capitão… – insisti no único tom monótono, metálico e sibilante que eu era capaz de usar.
Ele finalmente olhou-me, rapidamente avaliando seu projeto e a beleza barroca dos entalhes que ordenara que fossem espalhados naquele corpo que outrora fora inerte.
Qualquer outro indivíduo teria se sentido alarmado diante do que um incauto qualquer teria descrito como um aracnídeo com dez metros de uma a outra pata e com uma carranca feminina no lugar do corpo – eu era grotesca.
Sem dar maiores satisfações fez um gesto de impaciência ao fechar os controles e ir em direção a uma estante da biblioteca.
Não tinha muita certeza do que fazer. Meu único propósito era tirá-lo dali, a qualquer custo. Entretanto estava bem aparelhado para receber ordens e perceber o desejo do capitão, que certamente iam de encontro às minhas diretrizes.
Por um momento, assistindo aos esforços do capitão em abrir novo painel de controle, escondido atrás da estante, questionei-me sobre o que deveria fazer, mas não cabia a mim – e talvez eu não tivesse o ferramental necessário para tanto – ir de encontro ao que, no próximo girar de engrenagens, teria de realizar.
Ele já se dirigira a mim, muitas vezes como uma pianola superdimensionada, fazendo-o, entretanto, com um carinho peculiar de quem conhecia intimamente aquilo que criou.
- …Capitão… – tentei novamente, supondo ser capaz (e não era) de mudar meu tom de voz, o vapor diáfano me saindo pelas vias orais enquanto falava.
Não olhava para mim. Era inútil, e internamente eu sabia que não havia muito mais o que fazer a não ser arrancá-lo dos controles nos próximos segundos.
A estrutura cedia já em alguns pontos e o barulho alto da torção do casco e dos vazamentos já se fazia ouvir.
Minhas funções involuntárias disparavam sem piedade os obturadores a vapor, para vedar hermeticamente cada uma das seções da embarcação e o som de vigas se soltando do casco e rebites ricocheteando preocupavam-me.
Se alguma parte do casco se desprendesse e rompesse a parede ou o teto da nau, o cordão umbilical formado de fios, bobinas, canos, mangueiras e correias poderia ser lancetado ou seccionado, fazendo com que meu corpo corresse o risco de parar de funcionar e me privar de cumprir minha última missão.
- Capitão! – insisti como pude – Tenho ordens para tirá-lo daqui.
Toquei-lhe o ombro de leve e a reação violenta foi totalmente inesperada, tendo ele colhido um dos grandes livros de uma das prateleiras e desferido um golpe contra um dos conjuntos de lentes que sensibilizavam a câmara escura e os elementos que me permitiam interpretar a imagem que estava diante de mim.
- Esqueça a sua diretriz! Vidas têm de ser salvas! – e voltou ao trabalho, ignorando o fato de que não tinha como evitar que eu cumprisse as minhas metas.
Tentei recuperar, sem muito sucesso, o funcionamento do conjunto de lentes avariado mas logo desisti quando o casco se rompeu e água começou a invadir a biblioteca, rebites começando a explodir em todas as direções.
O capitão tentava se segurar sem deixar de tentar lidar com os controles que começavam a ser esmigalhados por trás do painel, seu mecanismo desmantelado por forças invisíveis mas totalmente previsíveis.
Eu não tinha mais alternativa e o próximo protocolo assumira o controle – ou seria eu mesmo? – fazendo-me lançar quatro de meus oito membros na direção do capitão.
A nau adernava e a força centrífuga separou-me dele, os barulhos nitidamente altos demais para o ouvido humano e as vigas começaram a invadir a biblioteca através das prateleiras da biblioteca e dos controles antes manipulados pelo capitão.
Um dos meus conjuntos funcionais foi atingido com força por destroços não identificados, inutilizando-o e impedindo correias e engrenagens de girar livremente.
O projeto do capitão era soberbo e todo o conjunto se desprendeu de minha carcaça, diminuindo meu peso e soltando-me da mistura de madeira e metal que caíra sobre mim. Um segundo conjunto redundante assumia o controle enquanto testemunhava o corpo inconsciente de meu alvo sendo jogado de encontro à grossa janela que dava para fora, onde o inferno de água e espuma se desenrolava.
Um conjunto de cliques altos marcou a mudança de situação acusada pela quebra de um sem número de giroscópios e acelerômetros ao longo da embarcação. Em resposta, um conjunto de engrenagens de movimento seccionalmente variado e controles diferenciais de intermitência assumiram para conferir maior torque e velocidade aos movimentos que eram permitidos para minha manifestação.
A qualquer testemunha de meus movimentos em meio ao aguaceiro que invadia a biblioteca, destruindo tudo e ao inferno provocado pela quebra dos elementos de decoração em milhares de ameaças em potencial, acreditaria que eu era um monstro arremetendo em direção ao capitão com intenção de matá-lo.
Tive breve condição de avaliar se aqueles movimentos eram meus ou se eram apenas nervuras mecânicas variáveis em placas diferenciais. A analogia com uma pianola me ocorreu por dois segundos até que consegui lutar contra os elementos e acolher o desfalecido capitão sob meu ventre, três de meus braços segurando-o com força enquanto os outros me davam segurança e defendiam-no e a mim mesmo dos destroços que vinham em nossa direção.
Singrei as águas com relativa facilidade, confundindo-me mais com os súbitos movimentos de um lado para o outro provocados pelo redemoínho e pelo rompimento repentino de uma série de canos estruturais nas paredes.
Lutei contra os controles de uma escotilha enquanto todas as luzes se apagavam e eu mesmo acendia minhas lanternas eletroluminescentes.
O corpo do capitão não reagia mas eu calculava que seria possível submergí-lo sem maiores problemas por cerca de 30 segundos. Mergulhei e avancei pela passagem que abrira.
A escotilha cedeu e pude ganhar o corredor seco que eu acabara de inundar. Com um pensamento provoquei o fechamento da escotilha atrás de mim, destruindo qualquer possibilidade de continuar fazendo uso do cordão umbilical, que fora espatifado por minha decisão de avançar de forma autônoma.
Eu não mais poderia me comunicar com o resto da nau, abrir e fechar escotilhas e coisas do gênero. Se tudo desse certo os controles de danos, deste corpo projetado pelo capitão, seria capaz de detectar o rompimento das cânulas umbilicais e…
Mas nada acontecera. Meu corpo, que recebia boa parte de sua força motriz das correias e das mangueiras de vapor, jazia inerte, perdendo o que restava de óleo e vapor d’água e se tornando, cada vez mais, incapaz de empreender qualquer movimento.
Os conjuntos de lentes percebiam movimento sutil no corpo do capitão, mas bem poderia ser por conta do jogar da embarcação e do esfacelamento do casco e da estrutura interna.
Quando as lentes pararam de sensibilizar o elemento ótico tive uma infinidade de segundos para entender que eu havia falhado e que minha missão fora um fracasso. Tudo mais era silêncio…
…até que percebi o capitão de forma fugidia, lutando para fazer alguma coisa nas minhas entranhas e fazendo com que sua imagem ainda diáfana fosse ficando cada vez mais clara. Eu tinha novamente meus movimentos.
A caldeira reduzida começava a funcionar e a bomba de vácuo operava em conjunto com o vapor para alimentar o engenho diferencial autônomo que deu continuidade aos meus pensamentos. Coloquei-me de pé diante de um capitão orgulhoso e comandei a liberação das cânulas umbilicais que eram agora um complexo emaranhado de destroços.
Um ruído alto e, para um humano, assustador, não abalou a mim nem aquele engenheiro genial que estava diante de mim. A água já começava a invadir o corredor quando continuamos em direção ao nosso destino.
Com o capitão sob quatro de meus membros me coloquei diante da câmara que começava a ser esmigalhada pela pressão que subia rapidamente.
Eu não esperava mais do que cumprir a diretriz que me dava motivo para minha existência e comecei a operação de abrir a câmara, preparar o lançamento e fixar seguramente o capitão no assento do batiscafo auto-propelido. Não tínhamos muito tempo.
Quando fechei a carlinga do veículo auxiliar do qual só o capitão e eu tínhamos conhecimento, a embarcação não teve mais como aguentar. O teto fechou-se sobre parte do meu corpo, que tentou reagir da melhor forma possível, me fazendo perder o funcionamento do conjunto ótico esquerdo e seis de meus membros.
Segurei as paredes como pude com os dois membros restantes e me certifiquei que o capitão estava em segurança.
A câmara se enchia d’água e ele, depois de verificar que sua fuga não tinha mais como ser evitada pelas forças do destino que então parecia tão cruel, olhou para mim.
Ele nunca me olhara daquele jeito, muito embora houvesse o que humanos chamam de carinho em sua voz, sempre que me dirigia a palavra.
O capitão colocou os cinco dedos na avantajada e resistente janela da carlinga e senti-me compelido a espalhar os sete dedos de um de meus membros no vidro em resposta, mas não podia soltar as paredes que poderiam partir a câmara em pedaços.
Reconheci o movimento de seus lábios que já vira mover daquela forma tantas vezes. Ele dizia: “Nautilus…”
E tentei responder com um inaudível “Nemo”, sem acrescentar o obrigatório “Capitão” diante do nome, pois meu corpo e todo o resto foi engolido pelas monstruosas forças de maré, enquanto o batiscafo se afastava em segurança e minha última engrenagem em movimento parava de…
Por Bruno Accioly
“Rota de Fuga”, por Bruno Accioly é um conto coberto por uma licença Creative Commons Atribuição-Uso Não-Comercial Vedada a Criação de Obras Derivadas.
Permissões além do escopo desta licença estão presentes em http://www.steampunk.com.br/.
A colunista do Terra, Elis Martini, de Porto Alegre, entrou em contato com a comunidade SteamPunk nas suas mais diversas manifestações e conseguiu entrevistas muito importantes para o movimento SteamPunk no Brasil.
Conforme pesquisa informal, publicada no OutraCoisa.com.br, cerca de 60% do espaço amostral internacional pesquisado, desconhecia o termo SteamPunk que, segundo a Wikipedia.org é “um subgênero da ficção científica, ou ficção especulativa, que ganhou fama no final dos anos 1980 e início dos anos 1990″. Todo subgênero é um gênero em si mesmo, claro, como é o caso do Science Fantasy, Hard Science Fiction ou o CyberPunk, e não seria diferente com o SteamPunk.
As definições divergem entre os entusiastas do gênero, dadas tanto sua experiência quanto sua perspectiva do assunto, o que é mais que normal em uma proposta tão nova.
O importante, entretanto, é que a mídia tenha a sensibilidade de perceber a existência destes movimentos e que os torne mais populares, promovendo a criação de novos grupos, organizados ou não, de interessados nestas manifestações culturais.
É gratificante, para qualquer entusiasta do gênero, perceber que há outras pessoas por aí com idéias tão próximas – ou mesmo tão distantes – mas que conservam um ponto em comum: o gosto pelo SteamPunk!
Este site tem por objetivo divulgar, explicar, inspirar, homenagear e produzir cultura SteamPunk.
O SteamPunk é um sub-gênero da Ficção Científica, fruto de um Século XIX imaginário, anacrônico, tecnologicamente precoce e à base de vapor e eletricidade.